No Limbo

Posted on 16/09/2013

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A NAVE POUSOU em uma estação deserta, cinza, sem sinal de vida, sem sinal de nada. Quasimodo quase caiu, levou um susto quando viu um metrô parando na sua frente. Seu companheiro, Levant, desceu da pequena e circular nave metálica e caminhou assustado, olhando para os lados, sem entender a situação. Os dois decidiram entrar no metrô. O veículo começou a se movimentar, rumo a lugar nenhum. Eles usavam trajes de astronautas, capacetes gigantescos e luvas prateadas. Um pequeno rádio que estava acoplado no peito de Levant começou a tocar, uma voz cheia de ruídos e mal sintonizada falou:

“Pouso Alfa/Alfa/Localização 065783-46/localização/confirma?pppppppppppppppppppppppppppppppp………….”

Eles não haviam entendido.

O metrô parou em outra estação, tão abandonada e suja quanto à primeira.

Tentaram entrar em contato com a Base. Sem resposta. Só chiado e mau contato. Eles encontraram e subiram algumas escadas enferrujadas. Não havia espécies vivas no local. Não havia sequer um sinal de ar, som ou cor. Só sujeira, preto e branco, lâmpadas piscando nos tetos, paredes pichadas, corredores estreitos, e uma lentidão que parecia simular a eternidade.

Eles não entendiam nada.

No meio de um dos enormes corredores, os astronautas encontraram um pequeno espelho triangular. Quasimodo pegou o objeto. Observou-se. O seu rosto começou a se abrir lentamente, nariz e boca se contorceram como um papel sendo queimado, e no lugar da sua pele branca, uma carne avermelhada foi surgindo, até se tornar um crânio lúgubre. Levant pegou o espelho da mão do amigo. Observou-se. A mesma coisa aconteceu com ele.

Ambos entraram em desespero.

O rosto humano havia cedido lugar para um rosto cadavérico. Não havia carne, só ossos, uma caveira com teias de aranha nos olhos de negrume. Cáries enormes nos dentes esqueléticos; o retrato da morte que tanto pintamos na infância.

Eles começaram a gritar, mas não havia som. Não havia barulho em suas preces.

Seus pulmões eram invisíveis.

Eles acharam uma escada. Era à saída do metrô. Assim que subiram os enormes degraus, uma luz branca e incessante queimou suas visões abstratas. Quasimodo e Levant caminharam naquela espécie de neve infinita que os cercavam, olharam ao redor e não conseguiram ver nada, só branco atrás de branco na frente de branco dentro de um branco cego. A dupla não sabia para onde ir, atrás deles, a escada para voltar ao metrô ainda era visível, e na verdade, era a única coisa visível.

O rádio toca novamente. Levant atende: “Hell/hell/inferno66/localização: moonzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz/terra/tterrrr/r/r/r/r/r/r/e/e/t/e/r/r/r/AA/a/a/a/a/a//fujama.aa;a/a/a/s/d.d.s..d.d.d…TIME DELTA 4…FUJAM;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;”

Lavant tentava falar com o amigo, mas viu que sua mandíbula e língua não existiam mais.

Quasimodo tentou ligar para alguém, mas seus dedos tremiam como uma britadeira.

Seus corpos não respondiam. Seus rostos não sentiam. Mas eles continuavam lá, vivos, se movimentando, sentindo cada momento do desespero que a cegueira branca  estava causando. Quasimodo e Levant já estavam mortos, só não sabiam ainda como o limbo iria responder à chegada deles.

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