Avenida 7

Posted on 29/09/2013

0


522249_170398463087412_100003517783381_234695_1517491643_n

Quando Luís Fontes caminha até a Avenida 7, ele não imagina que estou o esperando com uma faca em mãos. Fontes nunca olhou para os lados, ele é o perfeito exemplo do homem desligado. Meus olhos não param de piscar. Mão tremendo. Cabo da faca ensopado de suor. Não sei como descrever Fontes, creio que a melhor palavra seria fantasma. Aquele pedaço do passado que transformamos em invisibilidade, afastamento, murmúrio. Estou tensa, sinto um nojo concreto tomar conta da minha língua. Só de pensar que ele se aproxima fico com vontade de vomitar. Fecho meu casaco de couro, tiro o salto alto, e aguardo Luís Fontes. Ele vai chegar. De hoje não passa. Consigo escutar seus passos sorrateiros. Ele sempre caminha até a Avenida 7, acende um cigarro de palha, não olha para os lados e aguarda o tempo voltar a respirar. Ele nunca dobra a esquina. Ele nunca dobra a esquina em que me encontro. Ele nunca dobra a esquina em que a morte estará o esperando. Há anos Luís Fontes escapa das minhas mãos. Anos que nem valem à pena contar nos dedos. Lá está ele, no começo da Avenida 7. Acende o cigarro, ajeita o paletó mofado e fica parado. Depois de alguns minutos seu corpo exausto começa a se movimentar. Um transe invade meus ossos. Aperto o cabo da faca. Fontes volta a ficar parado. Os postes amarelados da Avenida 7 criam uma silhueta embaralhada com sua postura sóbria e rígida. Ele fica petrificado por alguns minutos. Eu abandono minha respiração. Não há vento na Avenida 7. Não há nada. Só nós dois. Fontes apaga o resto do seu cigarro no asfalto e continua caminhando até a esquina. Sinto vontade de urinar, tamanha a tensão que toma conta do meu organismo. Ele está próximo de dobrar a esquina. Estou a centímetros dele. Luís Fontes se espanta com alguma coisa. Um vento, uma mosca, um ar errado, uma estrela mal nascida. Ele abaixa a cabeça, um sorriso mal desenhado aparece em seu rosto, e ele dá meia volta. Deixo meu corpo frustrado se arrastar pelas paredes grafitadas da madrugada, deslizo até alcançar o piso imundo de panfletos e secreções. Luís Fontes se vai, retornando como se não houvesse respiração, fumando como se não tivesse pulmões, e observando como se não houvesse vida. Ele voltará. As lembranças sempre voltam. Seguro a raiva, amanhã é um novo dia. Sempre é. Amanhã ele não fugirá. Amanhã, Luís Fontes caminhará até a Avenida 7, e ele não imaginará que eu estarei o esperando com uma faca em mãos.

Anúncios
Posted in: Contos