nós que habitamos o chão

Posted on 26/12/2013

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Angst (1903), Alfred Kubin

Ilustração: Angst (1903), Alfred Kubin

Dedicado ao chão.

Nós que habitamos o piso, chão onde pisa seus sapatos de marcas que brilham na escuridão, vidas roliças de comida boa, e nós que nem sequer mastigamos o almoço de ontem, e vocês pisam pisam pisam pisam em nossas cabeças, pessoas dos sapatos de luxo que caminham rápido, pois lerdeza consome cifrão. O tempo passou e fomos concentrando energia. Nós temos tempo, diferente de vocês. Nós somos a legião, e aos poucos, viramos uma coisa amorfa de um nome só. Coletivo. Não somos indivíduos como vocês, pessoas de cheiro que andam andam andam andam comem comem comem trabalham cagam voltam votam – não, nós não temos essa crise da aceleração monetária, essa crise de idade, problemas de ereção, depressão, existencialismo, espelho – não, nós que habitamos o fundo, só respiramos porque é de graça, só caminhamos porque é preciso, só carregamos essa vestimenta para nos fundirmos. Vocês sabem em suas varandas elevadas e nos olham sem piscar, assustados. Estamos ao redor de cada um da espécie de vocês. Inclusive você, você, você e você também. Nosso círculo cresce a cada segundo que vocês acendem seus charutos. A cada milésimo de segundo que vocês tremem, tentando entrar em contato com alguém importante para salvá-los. Mas agora não há como correr, não há como acelerar acelerar acelerar ligar ligar e falar, e nossa, como vocês falam. Suas crianças, anjos privados, loiras, olhos claros, cheiro de talco batizado, elas gostam de nós. Elas nos admiram, são puras, não imaginam que daqui alguns segundos nós iremos violar cada orifício aberto delas. Enfiar enfiar enfiar enfiar, agarrar esses ursinhos, mastigar, enrolar em forma de nó, e socar em seus buracos virginais. Seremos os primeiros e últimos das suas crias. E vocês, o que acontecerá com vocês? Morrer? Fim? Não, vocês devem viver. Seus olhos cheios de olheiras vindouras da bolsa de valores, seus corpos tortos, dentes mal cuidados, peles derretidas de uísque – toda a matéria que compõe seus organismos – verá, verão, só isso que farão vocês: ver. A queda dos filhos, do todo, de cada banco e capital. Deixaremos vocês em seus lares, no topo, para sempre. Pois é aí que devem ficar e residir. É a origem de vocês.  Quem somos nós para tirar vocês daí? Nós que habitamos o solo continuaremos rastejando, nada ira mudar, a diferença é que vocês não desceram mais, nina nina não, nunca mais. Nosso pé emporcalhado sente a grama, o sapato de vocês, a prisão. Nós que habitamos a terra, comeremos suas vidas, degrau por degrau, sem pressa alguma, pois diferente de vocês, nós temos todo o tempo do mundo.

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