guia auditivo e imagético para o fim de uma criança de 7 anos

Posted on 27/04/2014

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Música de suspense. Piano em dó menor. Passos lentos de criança na areia da praia. Adultos com vozes de carnaval festejam o aniversário da criança. Ela continua dando passos lentos na areia. Piano desafina. As vozes se afastam. Passos lentos na areia se fundem ao mar. Passos rápidos no mar. Barulho de pé de criança pulando ondas. As vozes festivas estão em volume reduzido, distantes. Violino enferrujado acompanha o piano desafinado. Passos no mar. Uma voz de adulto grita: volta Lílian, aí é fundo. Pulos no mar. Piano e violino param. Silêncio total. O céu assovia, o sol fraco desce, os peixes mergulham no fim profundo. Não há mais som, e em poucos segundos, há som novamente, brusco, impactante. Algo explode. Barulho de trovão, mas não há nuvens no céu aberto. Os adultos olham para o mar. Passos rápidos no mar. Grito de criança desesperada. Os adultos perdendo a sanidade escutam o terrível saindo das águas salgadas: tentáculos negros, cheios de escamas, ensebados de corais, restos de sangue e carne humana, milhares de tentáculos, bilhares, todos invocados da explosão marítima ensurdecedora. Passos rápidos no mar. Passos rápidos na areia. Adultos correndo. Violino retorna de maneira agressiva. Piano em dó menor. Passos de adultos. Passos de criança. Corridas. Lílian corre. Barulho de chicote, vulto, tiro silencioso. Som de ossos sendo quebrados, ossos em formação, pequenos. Grito de criança morrendo. Grito de criança sendo arrastada até o infinito do mar. Explosão marítima, barulho de trovão, e os tentáculos partem, levando a cria dos adultos consigo. Choro desesperado de adultos. Não, não, não, que merda foi essa, não, por quê? Questionam em vão. Os bilhares de tentáculos puxam a criança para um mundo submerso. E assim foi. Sem passos. Piano em dó menor some devagar. Violino deixa de tocar. Não há mais carnaval, nem música de suspense, só existe rugido de mar, ressonando como fúria, infinito, sem cessar jamais.

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